Dia desses um homem tocou a campainha lá de casa. Atendi. Notei que ele sustentava um dos braços numa muleta e na outra mão segurava uma enorme cesta cheia de quitutes. Nela havia pães, cucas e outras gulodices.
Usualmente quando batemos à porta de um vivente, cumprimentamo-lo. Seja com um opa, um bom dia/tarde/noite, ou mesmo um singelo oi.
Entretanto, ao abrir a porta, surpreendi-me:
- Desculpa. – Foi a primeira palavra proferida pelo sujeito.
Não me senti injuriado. Longe disso. Mas o pedido de desculpa foi por qual motivo, por existir? Por ser vítima de uma sociedade carnívora, devoradora de homens? Aquilo me baleou com projéteis de culpa e compadecimento.
Talvez fosse eu quem lhe devesse salvatérios por integrar esta sociedade que o vitimou e o condenou a bater de porta em porta. Não que trabalho seja atitude indigna. Pelo contrário. Aí, o mais importante, é que há honestidade - talvez a mais nobre das virtudes Homo sapienses.
Tenho para mim que educação e cordialidade andam paralelas e no mesmo sentido com a dignidade. Todavia, neste caso não.
Naquele ato, o indigno foi a extrema solicitude do indivíduo, porque nisto se vai honradez do homem, quando se apresenta acuado como um vira-lata maltratado, de cabeça baixa e com olhar clamoroso por piedade. Mas animal ele não era. Era um homem como eu.
Cabe aqui o clichê: ninguém é melhor do que ninguém.
Presumo que a revolta seja constante na mente daqueles que estão à margem da sociedade. Alguns a têm como filosofia de vida e pegam em armas, matam. Outros se apegam na fé, no acalento da família e munem-se com pães e cucas.
A ideologia aristocrata da sociedade os faz pensar que por serem pobres e carentes, são também parasitas. Foi por isso que se desculpou.
Naquele instante eu não intencionava comprar nada – como não o fiz. Eu até sabia que, mais do que saciando uma eventual vontade minha, eu estaria ajudando-o, pois não se tratava somente de uma interação entre vendedor e freguês, aquilo era uma súplica.
Em seguida fechei a porta, parei-me reflexivo. Fiquei com pena e remorso. Fiquei faminto, com fome de pão.