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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Um quase momento


Ao meu redor, é tudo mais claro. Ouço murmúrios. São de pessoas que falam mal de outras pessoas, de vez em quando até falam bem. E tem alguém do meu lado, conheço esta pessoa. As demais estão afastadas. E tu, tu a quem conheço, não estás tão perto de mim, pelo menos não fisicamente. Daí tu me olhas. Sem querer, olho-te também. Sem querer.

Um sem querer muito bem quisto.

A partir disso, ficamos alheios àqueles murmúrios, a toda aquela gente tagarela. Construímos nossa atmosfera. Ela é menos clara, tem uma bruma que é doce e misteriosa, que intriga, para nos causar curiosidade, e aí queremos enxergar por através dela para contemplarmos um ao outro.

A mística da coisa.

No entanto, não atrevemo-nos a cruzá-la, a bruma. Não fazemos um sequer movimento, não mexemos um músculo sequer. Deixamos nossas ações por conta do olhar. Não queremos pôr fim a este nosso sem querer, a este nosso quase momento.

Muito além do quase.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Mi menor para 1991


Certa vez ouvi que para reviver bastava recordar. E não há melhor companhia para isso que a música, conducente e acalentadora.

Abraço-me ao violão e esboço o primeiro acorde, um mi menor.

Mi menor, para 1991.

O mi menor, profundo como só ele sabe ser. Ondeia pelo ar até meus tímpanos, vagarosamente para que eu possa assimilá-lo sem pressa e com gosto. Vem ele, o mi menor, até meus tímpanos, reticente.

O sol de 1991 era mais quente, mais moreno, mais bronzeado e lascivo. E ali ela, reluzente, na areia branca da praia. Eu parei a fitá-la, reto, como se o conceito de curva não existisse, ao menos fora daquele corpo, sinuoso e febril sob o sol; vê-la me fazia arder, arder por ela e pela ausência do protetor solar.

Outro acorde. Si menor, agora, no violão, como se estivesse intrigado com o desconhecido.

A noite daquele 1991 era ainda mais quente sem o sol, bem mais que isso. Ela, a tal mulher, como seria em qualquer outra narrativa, era ainda mais. Estávamos eu e ela, que agora era nós, despidos de nossas máscaras e vergonhas, com as vergonhas expostas. Excitei-me pelo momento, pelo instante em que, pelo átimo em que... Pelo momento que precede o toque que leva o homem sexo.

Lembro que naquela noite carimbamos nosso passaporte para o inferno. Lânguida, ela me intimava ao pecado com seus olhos bêbados de prazer; consumamos nosso pecado em si menor.

E ali eu, comprazido, hedonista como sou.

Peguei-me imerso naquela atmosfera de devassidão. Inspirava, expirava, respirei e senti o cheiro da volúpia... Si menor para o tato, e por que não para os ais que ela ciciava, nos quais eu prestava toda a minha atenção, dedicado, e de novo dedicado, mal intencionado. Parar? Não vou parar.

Dó, como se se quebrasse o encanto.

Sabia que ela iria, mais tarde, mais cedo ou mais tarde, porque era assim que seria, porque era assim que eu queria que fosse. E a nostalgia é inebriante, algumas doses de lembrança às vezes desorientam; depois desperto com enxaqueca, sem beber um chá de manhã morna, sem afagar aqueles cabelos ondulados, caídos por cima das costas e ombros, fios negros que delineavam e me indicavam os detalhes do seu corpo.

Sabia, enfim, que ela iria. Sabia do porém. Porque é assim que tem que ser, porque é assim que seria. Porque seria assim se diferente o fosse.

Mas espera.

Aí vem ela, em si menor mais uma vez.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Clichê

Eu que tanto detesto clichês, criei a cena mais mundana. Segurei nas mãos dela, como nos filmes de romance, ou drama, ou de quaisquer outros gêneros; é sempre a mesma fotografia. O prelúdio de uma declaração ou desculpa. No caso, tratava-se da segunda opção.

Tentei fitá-la nos olhos, porém não consegui. Hesitei, meu corpo ficou pesado e não respondia às minhas vontades. Travei completamente. O tempo que despendi elaborando aquelas palavras, agora já decoradas na minha cabeça, de nada valeu.

Engasguei.

Sim, eu havia preparado um discurso. Porém, palavra alguma sairia de mim, mesmo que quisesse dizer somente:

- Acabou!

Claro que não consegui.

Ela pressentiu o que estava por vir. O sexto sentido delas, as mulheres, nunca falha.

Mirei-a nos olhos e, naquele átimo ela compreendeu tudo. Olhou-me com súplica, não era o que ela desejava; não queria o fim.  E antes que fosse abalroada pelas minhas palavras, agarrou-me pelos ombros e me conduziu ao pecado.

Naquela noite, fizemo-nos luxúria; eu não resistiria àqueles lábios lascivos, molhados de prazer. Quaisquer amantes, tais quais os fossem, perto de nós seriam apenas coadjuvantes.

Na madrugada anterior, rendera-me aos prazeres da carne com outra mulher, a mulher do shopping... Eu há muito a cobiçava. Fora só uma traição nestes quase três anos de matrimônio. Alguns amigos disseram-me que não tinha que me culpar, que era normal, que era coisa de homem. Talvez eu até consentisse, mas uma voz muda, dentro de mim, pregava insistentemente que desse cabo do meu relacionamento. E não é que quase o fiz? Pudera! Como cogitei largar minha mulher, desfazer-me daqueles cinquenta e um quilos do mais puro deleite... Ah, sim. Ela era pura libido.

Se é para adjetivar essa noite com minha mulher, eu a descreveria como a mais intensa e confusa. O certo é que foi ímpar, foi incomum; tão sexual, tão sublime.

Despertei com ela, na minha cama, confortavelmente acomodada no meu braço que a envolvia, sua mão estava sobre meu peito, estava feito criança que se encolhe e acolhe-se ao corpo da mãe em busca de proteção. Fiquei compadecido com a cena - outro clichê, diga-se.

Eu gostava mesmo dela. Fato.

Afaguei-a nos cabelos e não contive um discreto sorriso. Recostei-me no travesseiro e cochilei outra vez. Pouco depois estávamos restabelecidos, já fora da cama. O êxtase da noite que se sucedera havia passado. Novamente estávamos frente a frente, sentados e acomodados à beira da cama, com olhares recíprocos. Peguei-a nas mãos - repeti o clichê que tanto odeio. Suspirei profundamente, um suspiro de conformidade, e disse-lhe:

- Meu bem, acabou.





O jornalista David Coimbra, acatando meu pedido, publicou este conto no blog dele. Uma galerinha lá fez alguns comentários. Segue o link: Clichê