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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Clichê

Eu que tanto detesto clichês, criei a cena mais mundana. Segurei nas mãos dela, como nos filmes de romance, ou drama, ou de quaisquer outros gêneros; é sempre a mesma fotografia. O prelúdio de uma declaração ou desculpa. No caso, tratava-se da segunda opção.

Tentei fitá-la nos olhos, porém não consegui. Hesitei, meu corpo ficou pesado e não respondia às minhas vontades. Travei completamente. O tempo que despendi elaborando aquelas palavras, agora já decoradas na minha cabeça, de nada valeu.

Engasguei.

Sim, eu havia preparado um discurso. Porém, palavra alguma sairia de mim, mesmo que quisesse dizer somente:

- Acabou!

Claro que não consegui.

Ela pressentiu o que estava por vir. O sexto sentido delas, as mulheres, nunca falha.

Mirei-a nos olhos e, naquele átimo ela compreendeu tudo. Olhou-me com súplica, não era o que ela desejava; não queria o fim.  E antes que fosse abalroada pelas minhas palavras, agarrou-me pelos ombros e me conduziu ao pecado.

Naquela noite, fizemo-nos luxúria; eu não resistiria àqueles lábios lascivos, molhados de prazer. Quaisquer amantes, tais quais os fossem, perto de nós seriam apenas coadjuvantes.

Na madrugada anterior, rendera-me aos prazeres da carne com outra mulher, a mulher do shopping... Eu há muito a cobiçava. Fora só uma traição nestes quase três anos de matrimônio. Alguns amigos disseram-me que não tinha que me culpar, que era normal, que era coisa de homem. Talvez eu até consentisse, mas uma voz muda, dentro de mim, pregava insistentemente que desse cabo do meu relacionamento. E não é que quase o fiz? Pudera! Como cogitei largar minha mulher, desfazer-me daqueles cinquenta e um quilos do mais puro deleite... Ah, sim. Ela era pura libido.

Se é para adjetivar essa noite com minha mulher, eu a descreveria como a mais intensa e confusa. O certo é que foi ímpar, foi incomum; tão sexual, tão sublime.

Despertei com ela, na minha cama, confortavelmente acomodada no meu braço que a envolvia, sua mão estava sobre meu peito, estava feito criança que se encolhe e acolhe-se ao corpo da mãe em busca de proteção. Fiquei compadecido com a cena - outro clichê, diga-se.

Eu gostava mesmo dela. Fato.

Afaguei-a nos cabelos e não contive um discreto sorriso. Recostei-me no travesseiro e cochilei outra vez. Pouco depois estávamos restabelecidos, já fora da cama. O êxtase da noite que se sucedera havia passado. Novamente estávamos frente a frente, sentados e acomodados à beira da cama, com olhares recíprocos. Peguei-a nas mãos - repeti o clichê que tanto odeio. Suspirei profundamente, um suspiro de conformidade, e disse-lhe:

- Meu bem, acabou.





O jornalista David Coimbra, acatando meu pedido, publicou este conto no blog dele. Uma galerinha lá fez alguns comentários. Segue o link: Clichê