segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Na Casa da Vó
domingo, 2 de janeiro de 2011
As unidades do cartão
Tu sabes que no alternar das gerações as coisas vão tornando-se obsoletas.
Lembro quando, em meados da década de 90, meu pai apresentou-me aquele aparelho revolucionário. Acho até que involuntariamente estiquei meus pequenos braços para tocá-lo, não tenho certeza. O certo é que fiquei vislumbrado.
Era um celular Gradiente, daqueles bem antigos, que tinha de puxar a antena e tudo mais. Também não recordo do preço, mas comparando com os celulares atuais, deve ter sido uma fortuna. Ah, também era possível enviar mensagens de texto, ver a hora etc. E, claro, podia-se jogar o tal do Snake. Já contei que fiz mais de 3 mil pontos nele?
Hoje, o tal celular da Gradiente não tem utilidade, as pessoas gargalham e fazem gracejos quando ele entra na pauta de uma conversa.
Outro fato do qual me recordo é dos orelhões à base de fichas telefônicas.
Nesta, também estava com o pai. Caminhamos muito até chegar num orelhão, que ficava próximo a um posto de saúde ou algo assim – talvez minha memória esteja me traindo. E lá se iam fichas e mais fichas para telefonar. Depois da privatização da telefonia no Brasil, pelo governo FHC, as coisas mudaram. A cada esquina, contávamos com a possibilidade de contatar pessoas de qualquer parte do mundo. E então vieram os cartões telefônicos.
Dia desses eu organizava minha coleção de cartões telefônicos. Tenho mais de mil. Eis que meu irmão, uma década mais novo que eu – uma criança, ainda – me questiona a respeito das unidades dos cartões telefônicos.
- Como é que é... Que funciona... Não sei direito.
Parece que o guri nunca usou um cartão telefônico de orelhão. Fiquei abismado.
Expliquei-lhe o funcionamento da coisa. Daí fiz algumas observações comigo e concluí alguns pontos, óbvios, mas que até então não havia olhado atentamente.
Eu mal conheci o funcionamento dos orelhões com fichas. O contato do meu irmão com cartões telefônicos foi praticamente zero. Sim, somos de gerações diferentes, normal. Não reside aí anormalidade alguma. As coisas mudam, é natural. Mas mais do que isso... a questão é outra.
Eureka! Veio-me então a verdade, a descoberta: "Estou ficando velho."
Não fosse o maldito governo FHC privatizar as telecomunicações, o cartão telefônico não existiria, eu não teria a coleção e meu irmão não me dispararia essa frase de grosso calibre à queima-roupa.
Maldito FHC.
sábado, 25 de setembro de 2010
Pães e Cucas
Dia desses um homem tocou a campainha lá de casa. Atendi. Notei que ele sustentava um dos braços numa muleta e na outra mão segurava uma enorme cesta cheia de quitutes. Nela havia pães, cucas e outras gulodices.
Usualmente quando batemos à porta de um vivente, cumprimentamo-lo. Seja com um opa, um bom dia/tarde/noite, ou mesmo um singelo oi.
Entretanto, ao abrir a porta, surpreendi-me:
- Desculpa. – Foi a primeira palavra proferida pelo sujeito.
Não me senti injuriado. Longe disso. Mas o pedido de desculpa foi por qual motivo, por existir? Por ser vítima de uma sociedade carnívora, devoradora de homens? Aquilo me baleou com projéteis de culpa e compadecimento.
Talvez fosse eu quem lhe devesse salvatérios por integrar esta sociedade que o vitimou e o condenou a bater de porta em porta. Não que trabalho seja atitude indigna. Pelo contrário. Aí, o mais importante, é que há honestidade - talvez a mais nobre das virtudes Homo sapienses.
Tenho para mim que educação e cordialidade andam paralelas e no mesmo sentido com a dignidade. Todavia, neste caso não.
Naquele ato, o indigno foi a extrema solicitude do indivíduo, porque nisto se vai honradez do homem, quando se apresenta acuado como um vira-lata maltratado, de cabeça baixa e com olhar clamoroso por piedade. Mas animal ele não era. Era um homem como eu.
Cabe aqui o clichê: ninguém é melhor do que ninguém.
Presumo que a revolta seja constante na mente daqueles que estão à margem da sociedade. Alguns a têm como filosofia de vida e pegam em armas, matam. Outros se apegam na fé, no acalento da família e munem-se com pães e cucas.
A ideologia aristocrata da sociedade os faz pensar que por serem pobres e carentes, são também parasitas. Foi por isso que se desculpou.
Naquele instante eu não intencionava comprar nada – como não o fiz. Eu até sabia que, mais do que saciando uma eventual vontade minha, eu estaria ajudando-o, pois não se tratava somente de uma interação entre vendedor e freguês, aquilo era uma súplica.
Em seguida fechei a porta, parei-me reflexivo. Fiquei com pena e remorso. Fiquei faminto, com fome de pão.