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segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Na Casa da Vó

Privilégio é o que tem o joão-de-barro; construiu a casa com vista para o infinito

Quando em férias, em meados de 2009, fiz essa fotografia na casa da minha avó materna. Aliás. Não na casa, mas sim no sítio em que ela vive há tanto tempo com meu avô. Pode-se dizer que vivem isolados do mundo, têm hábitos do campo. 

Moram próximos a um lugarejo chamado Chimarrão, que é adjacente a André da Rocha, cidade com cerca de 1.400 habitantes - na região nordeste do RS. 

O modo de viver dos meus avós pode ser análogo à forma como vive o joão-de-barro. 

Ô vida boa, longe do caos do mundo moderno.

domingo, 2 de janeiro de 2011

As unidades do cartão

Tu sabes que no alternar das gerações as coisas vão tornando-se obsoletas.

Lembro quando, em meados da década de 90, meu pai apresentou-me aquele aparelho revolucionário. Acho até que involuntariamente estiquei meus pequenos braços para tocá-lo, não tenho certeza. O certo é que fiquei vislumbrado.

Era um celular Gradiente, daqueles bem antigos, que tinha de puxar a antena e tudo mais. Também não recordo do preço, mas comparando com os celulares atuais, deve ter sido uma fortuna. Ah, também era possível enviar mensagens de texto, ver a hora etc. E, claro, podia-se jogar o tal do Snake. Já contei que fiz mais de 3 mil pontos nele?

Hoje, o tal celular da Gradiente não tem utilidade, as pessoas gargalham e fazem gracejos quando ele entra na pauta de uma conversa.

Outro fato do qual me recordo é dos orelhões à base de fichas telefônicas.

Nesta, também estava com o pai. Caminhamos muito até chegar num orelhão, que ficava próximo a um posto de saúde ou algo assim – talvez minha memória esteja me traindo. E lá se iam fichas e mais fichas para telefonar. Depois da privatização da telefonia no Brasil, pelo governo FHC, as coisas mudaram. A cada esquina, contávamos com a possibilidade de contatar pessoas de qualquer parte do mundo. E então vieram os cartões telefônicos.

Dia desses eu organizava minha coleção de cartões telefônicos. Tenho mais de mil. Eis que meu irmão, uma década mais novo que eu – uma criança, ainda – me questiona a respeito das unidades dos cartões telefônicos.

- Como é que é... Que funciona... Não sei direito.

Parece que o guri nunca usou um cartão telefônico de orelhão. Fiquei abismado.

Expliquei-lhe o funcionamento da coisa. Daí fiz algumas observações comigo e concluí alguns pontos, óbvios, mas que até então não havia olhado atentamente.

Eu mal conheci o funcionamento dos orelhões com fichas. O contato do meu irmão com cartões telefônicos foi praticamente zero. Sim, somos de gerações diferentes, normal. Não reside aí anormalidade alguma. As coisas mudam, é natural. Mas mais do que isso... a questão é outra.

Eureka! Veio-me então a verdade, a descoberta: "Estou ficando velho."

Não fosse o maldito governo FHC privatizar as telecomunicações, o cartão telefônico não existiria, eu não teria a coleção e meu irmão não me dispararia essa frase de grosso calibre à queima-roupa.

Maldito FHC.

sábado, 25 de setembro de 2010

Pães e Cucas

Circula por aí um pessoal que vende coisas, sabes? Vendedores ambulantes autônomos, que deixam seus lares diariamente, carregados de mercadorias, dúvida e esperança.

Dia desses um homem tocou a campainha lá de casa. Atendi. Notei que ele sustentava um dos braços numa muleta e na outra mão segurava uma enorme cesta cheia de quitutes. Nela havia pães, cucas e outras gulodices.

Usualmente quando batemos à porta de um vivente, cumprimentamo-lo. Seja com um opa, um bom dia/tarde/noite, ou mesmo um singelo oi.

Entretanto, ao abrir a porta, surpreendi-me:

- Desculpa. – Foi a primeira palavra proferida pelo sujeito.

Não me senti injuriado. Longe disso. Mas o pedido de desculpa foi por qual motivo, por existir? Por ser vítima de uma sociedade carnívora, devoradora de homens? Aquilo me baleou com projéteis de culpa e compadecimento.

Talvez fosse eu quem lhe devesse salvatérios por integrar esta sociedade que o vitimou e o condenou a bater de porta em porta. Não que trabalho seja atitude indigna. Pelo contrário. Aí, o mais importante, é que há honestidade - talvez a mais nobre das virtudes Homo sapienses.

Tenho para mim que educação e cordialidade andam paralelas e no mesmo sentido com a dignidade. Todavia, neste caso não.

Naquele ato, o indigno foi a extrema solicitude do indivíduo, porque nisto se vai honradez do homem, quando se apresenta acuado como um vira-lata maltratado, de cabeça baixa e com olhar clamoroso por piedade. Mas animal ele não era. Era um homem como eu.

Cabe aqui o clichê: ninguém é melhor do que ninguém.

Presumo que a revolta seja constante na mente daqueles que estão à margem da sociedade. Alguns a têm como filosofia de vida e pegam em armas, matam. Outros se apegam na fé, no acalento da família e munem-se com pães e cucas.

A ideologia aristocrata da sociedade os faz pensar que por serem pobres e carentes, são também parasitas. Foi por isso que se desculpou.

Naquele instante eu não intencionava comprar nada – como não o fiz. Eu até sabia que, mais do que saciando uma eventual vontade minha, eu estaria ajudando-o, pois não se tratava somente de uma interação entre vendedor e freguês, aquilo era uma súplica.

Em seguida fechei a porta, parei-me reflexivo. Fiquei com pena e remorso. Fiquei faminto, com fome de pão.