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sábado, 25 de setembro de 2010

Pães e Cucas

Circula por aí um pessoal que vende coisas, sabes? Vendedores ambulantes autônomos, que deixam seus lares diariamente, carregados de mercadorias, dúvida e esperança.

Dia desses um homem tocou a campainha lá de casa. Atendi. Notei que ele sustentava um dos braços numa muleta e na outra mão segurava uma enorme cesta cheia de quitutes. Nela havia pães, cucas e outras gulodices.

Usualmente quando batemos à porta de um vivente, cumprimentamo-lo. Seja com um opa, um bom dia/tarde/noite, ou mesmo um singelo oi.

Entretanto, ao abrir a porta, surpreendi-me:

- Desculpa. – Foi a primeira palavra proferida pelo sujeito.

Não me senti injuriado. Longe disso. Mas o pedido de desculpa foi por qual motivo, por existir? Por ser vítima de uma sociedade carnívora, devoradora de homens? Aquilo me baleou com projéteis de culpa e compadecimento.

Talvez fosse eu quem lhe devesse salvatérios por integrar esta sociedade que o vitimou e o condenou a bater de porta em porta. Não que trabalho seja atitude indigna. Pelo contrário. Aí, o mais importante, é que há honestidade - talvez a mais nobre das virtudes Homo sapienses.

Tenho para mim que educação e cordialidade andam paralelas e no mesmo sentido com a dignidade. Todavia, neste caso não.

Naquele ato, o indigno foi a extrema solicitude do indivíduo, porque nisto se vai honradez do homem, quando se apresenta acuado como um vira-lata maltratado, de cabeça baixa e com olhar clamoroso por piedade. Mas animal ele não era. Era um homem como eu.

Cabe aqui o clichê: ninguém é melhor do que ninguém.

Presumo que a revolta seja constante na mente daqueles que estão à margem da sociedade. Alguns a têm como filosofia de vida e pegam em armas, matam. Outros se apegam na fé, no acalento da família e munem-se com pães e cucas.

A ideologia aristocrata da sociedade os faz pensar que por serem pobres e carentes, são também parasitas. Foi por isso que se desculpou.

Naquele instante eu não intencionava comprar nada – como não o fiz. Eu até sabia que, mais do que saciando uma eventual vontade minha, eu estaria ajudando-o, pois não se tratava somente de uma interação entre vendedor e freguês, aquilo era uma súplica.

Em seguida fechei a porta, parei-me reflexivo. Fiquei com pena e remorso. Fiquei faminto, com fome de pão.

sábado, 26 de junho de 2010

Oitavas são sempre oitavas

As Seleções das oitavas estão fechadas. O caminho do Brasil até a final do Mundial tende a ser tranquilo. Isso é ótimo já que do outro lado está a Seleção da Argentina, o que significa uma oportunidade rara de poder enfrentar os hermanos numa final de Copa do Mundo - anseio de todos os brasileiros e, por que não, dos argentinos.

Populares me param na rua e perguntam sobre quem eu acho que vai vencer os próximos duelos. Bem, quanto à Argentina e México, está evidente o poderio dos nossos rivais, com grandes craques e o melhor jogador de futebol do mundo integrando a equipe. Mas o México é sempre o México.

Sobre o embate entre Inglaterra e Alemanha, digo que a Alemanha deve levar a melhor. Demonstrou um excelente futebol. Só que Inglaterra é sempre Inglaterra.

E, finalmente, temos Espanha e Portugal. Outra peleja que promete. Ambas têm tradição e disputam o mundo desde o século XV com suas naus, no período das grandes navegações. Dessa vez não há tratado que divida a vaga para as quartas-de-final. Pode ser que Portugal vença. Mas a gente sabe que a Espanha é sempre a Espanha.

Pois bem, esses são os confrontos que merecem destaque. Mas para não dizer que não comentei nada das outras Seleções, na próxima segunda-feira o Brasil enfrenta o Chile, que promete fazer o Ellis Park tremer a 8,8 graus na escala Richter. Vejamos.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Era ela, Tamy

Atendendo ao pedido dele, ela ligou a webcam. Tamy era o nome daquela mulher. Ah...

– Tamy... Tamy... – Balbuciava o nome dela, em baixo tom, como se fizesse uma prece.

Tamy era linda. Os cabelos negros e longos lhe caiam sobre os ombros. A pele de bronze, como que feita sob encomenda. Aliás, sua exuberância não se deu por obra do acaso. Não. Uma mulher desse calibre é feita metodicamente, passo a passo. O Criador certamente se deteve nas minúcias. Deveria estar inspirado, era Sua Monalisa. Ela... Seus olhos, tão belos e singelos, mas capazes de entorpecer quem se atrevesse a fitá-los. Olhar luzido e intenso. Ele a olhava... Olhava... Infinitas reticências acompanhavam seu olhar. Parecia estar junto dela. Tamy estava ali, serena. Qualquer gesto, qualquer movimento o instigava. As mãozinhas delicadas... Pequenas mãos, tenras.

– Se eu pudesse sentir sua presença, tocá-la. – Murmurou.

Embasbacado ele permaneceu durante poucos segundos. Pelo menos no tempo cronológico. No tempo psicológico, foi possível fazer um bate-volta ao infinito. Contemplava-a. Estava encantadora. A nostalgia tomou conta dele. Eram as lembranças que passavam desordenadamente diante dos seus olhos. Recordações de momentos únicos, os quais vivera com ela tempos atrás. Via imagens disformes! Não conseguia enxergar! Mas podia sentir. E aquela sensação o agradava. Sentia a presença dela! Sim. Glorificava-se por ter vivido aquilo! Sentia-se vivo! Dentre as memórias eternizadas   no seu íntimo e a visão da Afrodite reencarnada ele se encontrava. Sua visão periférica havia sumido. Só conseguia  focá-la. Tudo ficou enevoado e turvo. Lento. Só tinha olhos para ela e parecia enxergá-la em câmera lenta. Estava extasiado. Era ela! Tamy! Tamy!!

Então, a webcam foi desligada.

– Nossa! - Ele estava de volta à realidade.