Certa vez ouvi que para reviver bastava recordar. E não há melhor companhia para isso que a música, conducente e acalentadora.
Abraço-me ao violão e esboço o primeiro acorde, um mi menor.
Mi menor, para 1991.
O mi menor, profundo como só ele sabe ser. Ondeia pelo ar até meus tímpanos, vagarosamente para que eu possa assimilá-lo sem pressa e com gosto. Vem ele, o mi menor, até meus tímpanos, reticente.
O sol de 1991 era mais quente, mais moreno, mais bronzeado e lascivo. E ali ela, reluzente, na areia branca da praia. Eu parei a fitá-la, reto, como se o conceito de curva não existisse, ao menos fora daquele corpo, sinuoso e febril sob o sol; vê-la me fazia arder, arder por ela e pela ausência do protetor solar.
Outro acorde. Si menor, agora, no violão, como se estivesse intrigado com o desconhecido.
A noite daquele 1991 era ainda mais quente sem o sol, bem mais que isso. Ela, a tal mulher, como seria em qualquer outra narrativa, era ainda mais. Estávamos eu e ela, que agora era nós, despidos de nossas máscaras e vergonhas, com as vergonhas expostas. Excitei-me pelo momento, pelo instante em que, pelo átimo em que... Pelo momento que precede o toque que leva o homem sexo.
Lembro que naquela noite carimbamos nosso passaporte para o inferno. Lânguida, ela me intimava ao pecado com seus olhos bêbados de prazer; consumamos nosso pecado em si menor.
E ali eu, comprazido, hedonista como sou.
Peguei-me imerso naquela atmosfera de devassidão. Inspirava, expirava, respirei e senti o cheiro da volúpia... Si menor para o tato, e por que não para os ais que ela ciciava, nos quais eu prestava toda a minha atenção, dedicado, e de novo dedicado, mal intencionado. Parar? Não vou parar.
Dó, como se se quebrasse o encanto.
Sabia que ela iria, mais tarde, mais cedo ou mais tarde, porque era assim que seria, porque era assim que eu queria que fosse. E a nostalgia é inebriante, algumas doses de lembrança às vezes desorientam; depois desperto com enxaqueca, sem beber um chá de manhã morna, sem afagar aqueles cabelos ondulados, caídos por cima das costas e ombros, fios negros que delineavam e me indicavam os detalhes do seu corpo.
Sabia, enfim, que ela iria. Sabia do porém. Porque é assim que tem que ser, porque é assim que seria. Porque seria assim se diferente o fosse.
Mas espera.
Aí vem ela, em si menor mais uma vez.